Movimento político aponta para maior fragmentação do voto, avanço evangélico e novas lideranças no estado
Nas eleições presidenciais de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro teve desempenho abaixo da média nacional na Paraíba, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva venceu com ampla vantagem em todas as cidades do estado no segundo turno, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quatro anos depois, o cenário político paraibano começa a dar sinais de transformação, especialmente com a reorganização da direita, que busca consolidar uma identidade menos dependente de lideranças nacionais.
Para as eleições de 2026, analistas apontam que o campo conservador entra em uma nova fase, marcada por maior articulação local e tentativa de construção de protagonismo próprio. Esse movimento já se reflete nas pré-candidaturas de nomes como Marcelo Queiroga ao Senado e Efraim Filho ao Governo da Paraíba.
Segundo o professor e pesquisador em ciência política Rodolpho Raphael, o estado vive uma reconfiguração ideológica que vai além das tradicionais disputas partidárias. “A Paraíba foi historicamente dominada por grupos de centro e centro-esquerda, com MDB e PSB como protagonistas. O que vemos agora é uma mudança mais profunda, com novas bases de apoio e identidade política”, afirma.
Avanço evangélico e voto conservador
Um dos principais fatores que explicam o crescimento da direita no estado é o avanço das igrejas neopentecostais, especialmente no interior. O fortalecimento dessas instituições tem impulsionado pautas conservadoras e ampliado a influência de candidatos alinhados a esse perfil.
De acordo com Raphael, o voto evangélico tende a ganhar ainda mais relevância em 2026, podendo redesenhar o mapa eleitoral em diversas regiões, sobretudo no Sertão e Agreste. Esse cenário exige campanhas mais segmentadas e forte presença digital, já que o comportamento do eleitor deve ser mais volátil do que em 2022.
Outro elemento relevante é a insatisfação com o chamado “establishment” político local. Eleitores que não se sentem representados por lideranças tradicionais têm migrado para candidaturas com discurso anti-sistema, reforçando o espaço para outsiders.
Fragmentação e pragmatismo político
O comportamento do eleitor paraibano também passa por mudanças estruturais. A fidelidade partidária vem diminuindo, enquanto cresce a valorização de lideranças locais com presença concreta nas comunidades.
Ao mesmo tempo, o pragmatismo político nordestino segue como característica marcante. Alianças de última hora, especialmente em segundo turno, continuam sendo decisivas e podem redefinir cenários eleitorais de forma rápida.
Articulação da oposição
A movimentação recente da direita no estado já demonstra maior organização. Em março, o senador Flávio Bolsonaro participou de um evento político na Paraíba ao lado de Efraim Filho, reunindo lideranças nacionais e locais do Partido Liberal. O ato contou ainda com nomes como Cabo Gilberto Silva, Sargento Neto, Wallber Virgolino e George Moraes, evidenciando um esforço de unificação da oposição.
Para analistas, esse tipo de articulação indica que a direita paraibana busca consolidar uma base mais estruturada, capaz de disputar espaço com grupos já estabelecidos.
Peso estratégico da Paraíba
Com mais de 3,2 milhões de eleitores aptos, segundo o TSE, a Paraíba tem relevância regional dentro do Nordeste, embora seu peso no cenário nacional seja considerado moderado. Ainda assim, o estado pode refletir tendências mais amplas da polarização política brasileira.
No contexto local, essa polarização tende a se manifestar de forma mais identitária, com eleitores votando muitas vezes contra adversários, e não necessariamente a favor de propostas. Temas como economia, saúde e segurança acabam subordinados às narrativas políticas dominantes.
Desafio dos pré-candidatos
Diante desse cenário, os pré-candidatos ao Governo da Paraíba enfrentam um desafio que vai além da apresentação de propostas. Será necessário equilibrar discurso, articulação política e conexão emocional com o eleitorado.
Efraim Filho, por exemplo, surge com força dentro do campo conservador, mas ainda precisa consolidar uma liderança local independente. Já nomes como Lucas Ribeiro e Cícero Lucena representam diferentes estratégias dentro de um ambiente cada vez mais competitivo.
Para Rodolpho Raphael, o crescimento da direita no estado é consistente, mas ainda está em fase de maturação. “Depender exclusivamente de lideranças nacionais não sustenta um projeto político no Nordeste. O eleitor paraibano é pragmático e cobra resultados concretos”, conclui.

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